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Livro Tesouro de Pano

Livro “Tesouro de Pano”:

Realidade e Ficção na Bandeira de Pano do Colégio Estadual Padre Colbachini

 

A seguir, texto do escritor Luis Dill, que contextualiza a publicação da obra “Tesouro de Pano”, inspirada em trabalho realizado em nossa escola:

 

"Nova Bassano, 19 de abril de 2006

Amigas e amigos de Nova Bassano,

 

Com muita freqüência me perguntam de onde vêm as idéias para uma história, para um conto, para um romance. Invariavelmente respondo: a idéia vem de qualquer lugar. O que a princípio soa pouco esclarecedor se explica. Sim, idéias, para mim, costumam vir de qualquer lugar. De todos os lugares, mesmo os mais improváveis. De um sonho, por exemplo. De um episódio verídico vivenciado por mim ou por alguém. De um passeio. De um azulejo quebrado. De um brinco. De uma notícia de jornal.

 

Nem sempre minha explicação é satisfatória, mas, em literatura, as explicações, por vezes, são assim mesmo. Literatura não é uma ciência exata, tampouco se baseia em fórmulas concretas. Pelo contrário. As explicações e a maioria das circunstâncias que se relacionam de uma maneira ou de outra com literatura e com a ficção de um modo geral precisam muito mais ser sentidas do que propriamente explicadas.

 

Porém quis o acaso que eu vivenciasse tal situação em Nova Bassano. (Aqui me vejo obrigado a abrir um parênteses. O acaso? Terá mesmo sido o acaso?) Em um dos encontros com alunos e professores alguém fez a clássica pergunta: de onde vêm as idéias? Eu, como das outras tantas vezes, respondi: as idéias vêm de qualquer lugar. Minutos depois, no intervalo entre uma palestra e outra avistei uma singular bandeira tremulando no mastro, bem no centro do pátio do Colégio Estadual Padre Colbachini. Colorida, feita de vários retalhos, bonita. Curioso, perguntei qual o significado de tal bandeira, qual a história dela. Tão logo recebi a resposta eu ri e falei: viram só de onde vêm as idéias? Viram só como é fácil ser escritor? E acrescentei: essa bandeira dá um livro!

 

Naqueles dois dias de maio de 2005 em que visitei o Colbachini deparei-me com muitas coisas positivas, entre elas carinho, hospitalidade, competência, empatia e criatividade. Não bastasse tudo isso começava a nascer ali mais um dos meus livros, sempre motivo de felicidade para mim. E essa gênese deveu-se em muito ao corpo de professores e da direção que me propuseram o desafio de criar uma história inspirada na bandeira. Logo de cara encarei aquilo com simpatia. A medida em que o convite era reforçado minha simpatia ia se tingindo de outras cores. Cores capazes de emprestar luzes ao que há pouco era apenas um sonho, um episódio verídico, um passeio, um azulejo quebrado, um brinco, uma notícia de jornal. Súbito havia mais do que uma bandeira feita de retalhos. Muito mais do que um desafio, bem mais do que minha promessa. Logo, eu guiava rumo a Erechim para visitar a família de meu irmão e antes mesmo de chegar, a história já estava pronta. Porque a bandeira de pano do Colbachini tinha força, tinha alma. E quando uma idéia vem de um lugar desses, o escritor vira mero datilógrafo, ou digitador: os personagens são os verdadeiros escritores. São eles que vão contando tudo, estabelecendo conflitos, ações, soluções. E assim foi. Na cidade de Erechim, tão logo cumprimentei meu irmão, minha cunhada e meus sobrinhos, perguntei se havia um computador onde eu pudesse redigir algumas anotações. Acreditem, foram bem mais do que simples anotações. Ao regressar a Porto Alegre O tesouro de pano estava todo na minha cabeça e eu já contava com os primeiros capítulos redigidos. Daí para frente foram mais alguns dias de pesquisas, depois outros mais relendo e reescrevendo o material até que eu o considerasse pronto para a primeira vítima, quer dizer, para o primeiro leitor. No caso, uma leitora.

 

Se aqueles dois dias de maio de 2005 em Nova Bassano foram marcados por tantas coisas boas, gosto de pensar que O tesouro de pano, aqui gestado, também representa uma guinada em minha vida. Gosto de pensar que aquele período inaugurou verdadeira maré de sorte. Tanto no que se refere aos livros quanto à minha vida pessoal e sentimental. Após Nova Bassano, foram várias feiras, várias escolas, vários leitores e, é claro, a primeira pessoa a ler O tesouro de pano. Pouco depois de retornar de Nova Bassano eu a conheci. Ela tornou-se minha leitora, minha namorada e, hoje, minha mulher. Portanto, nada mais justo do que dedicar o livro à Sizi, pela primeira leitura e por tudo mais; ao meu irmão, minha cunhada e meus sobrinhos, pelo apoio inicial; e, sobretudo, aos amigos e amigas de Nova Bassano pelo desafio.

 

E esse desafio acabou se traduzindo também no conflito central do próprio livro. Ali, no interior d’O tesouro de pano abordei a inversão de valores que ocorre nos dias de hoje entre o ser e o ter. Parece que atualmente a sociedade de um modo geral valoriza mais o ter do que o ser. É mais importante ter o tênis da moda, o carro do ano, do que ser ético, decente. Creio que esse é um dos principais desafios que todos nós temos pela frente. Daí porque não me canso de chamar a comunidade dessa querida cidade de amigas e amigos. Para mim, no começo de Século XXI, amizade me parece um verdadeiro tesouro.

 

Para encerrar lembro da Feira do Livro de 2005 do Colbachini para a qual tive a honra de ter sido convidado. O evento não nos convidava a recriar a vida? A reescrever o mundo pela leitura? Tenho a mais profunda certeza de que ao aceitar o desafio dessa comunidade eu fiz exatamente isso. Com O tesouro de pano recriei a vida que a bandeira de retalhos sugere a todos nós. E eu espero que com a leitura do livro cada um o reescreva à sua maneira e, por que não?, reescreva o seu próprio mundo.

 

Muito obrigado

 

Luís Dill"

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